Qual a origem da endometriose? Entenda as teorias e a genética

Ilustração do útero, trompas e ovários com pequenos focos externos e uma representação de DNA ao fundo.

A origem da endometriose envolve diferentes mecanismos, e nenhuma explicação isolada esclarece todas as apresentações da doença. Menstruação retrógrada, hipóteses relacionadas ao desenvolvimento embrionário, circulação de células e predisposição genética ajudam a organizar esse entendimento. Ainda assim, não conseguimos apontar uma causa única para cada paciente.

Uma dúvida costuma aparecer logo nessa conversa: se existem várias teorias, significa que não sabemos nada? Não. Significa que precisamos distinguir o que os estudos demonstram, o que eles sugerem e o que ainda permanece em investigação. Uma doença complexa pode reunir caminhos diferentes até um resultado semelhante.

Sou o Dr. Vinícius Araújo, cirurgião ginecológico com especialização em endometriose, incluindo casos complexos com acometimento intestinal, urinário e de estruturas profundas da pelve. Atuo no Rio de Janeiro, RJ – Brasil. Neste artigo, explico os principais mecanismos propostos para o surgimento da doença que afeta cerca de 10% das mulheres em idade fértil.

O que precisamos explicar sobre a origem da endometriose?

A endometriose caracteriza-se pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. O endométrio é o revestimento interno do útero. Entretanto, as lesões de endometriose não são simplesmente uma menstruação acontecendo em outro lugar: seu desenvolvimento envolve interação com o tecido ao redor, estímulos hormonais e processos inflamatórios.

Por isso, investigar a origem exige responder a mais de uma pergunta. Como essas células aparecem fora da cavidade uterina? Por que conseguem permanecer ali? O que favorece o crescimento e a manutenção das lesões? E por que diferentes pacientes apresentam formas tão distintas?

A Organização Mundial da Saúde informa que as causas da endometriose ainda não são totalmente conhecidas. Isso não invalida os mecanismos estudados. Apenas impede que uma hipótese seja apresentada como resposta definitiva para todos os casos.

Menstruação retrógrada e implantação de células

A menstruação retrógrada é uma das explicações mais conhecidas. Nessa situação, parte do conteúdo menstrual segue pelas trompas em direção à cavidade pélvica, em vez de sair exclusivamente pelo colo do útero e pela vagina.

A hipótese propõe que células presentes nesse material possam aderir a superfícies fora do útero e participar da formação de lesões. Estudos experimentais e observações clínicas dão sustentação à importância desse caminho. No material que preparei sobre o tema, destaco os estudos em primatas e a relação entre obstruções à saída do fluxo menstrual e endometriose.

Por que o refluxo menstrual não explica todos os casos?

O refluxo pode ocorrer sem que a pessoa desenvolva endometriose. Portanto, a presença do material menstrual fora do útero, por si só, não resolve toda a explicação. A sobrevivência das células, a capacidade de aderir e as condições locais também importam.

Além disso, algumas localizações e apresentações da doença são difíceis de compreender apenas pelo trajeto das trompas. É justamente essa limitação que abre espaço para outros mecanismos. Reconhecer o papel da menstruação retrógrada não exige transformá-la na única origem possível.

Teoria embrionária e desenvolvimento das lesões

As hipóteses embrionárias propõem que determinadas células remanescentes do desenvolvimento possam permanecer fora de sua localização habitual e, posteriormente, participar da formação de tecido semelhante ao endométrio.

O ponto central é a possibilidade de uma predisposição local anterior ao aparecimento dos sintomas. Sob estímulos posteriores, incluindo hormonais, essas células poderiam adquirir características relacionadas às lesões. Essa explicação aparece nas discussões sobre apresentações que o refluxo menstrual não esclarece facilmente.

Essa teoria é essencial para compreender a diversidade de apresentações da endometriose. Porém, precisamos evitar um salto de interpretação: a hipótese não permite afirmar que toda paciente já nasceu com todas as lesões que desenvolverá ao longo da vida.

Também não é possível olhar apenas para a localização de uma lesão e concluir que sua origem foi necessariamente embrionária. O local ajuda a formular perguntas de pesquisa, mas não funciona como uma prova individual do mecanismo.

Teoria embrionária para o artigo sobre Qual a origem da endometriose

As teorias podem atuar em conjunto?

Sim, mecanismos diferentes podem ser complementares. Por exemplo, um ambiente inflamatório pode interagir com células predispostas em determinado tecido. Essa possibilidade é diferente de afirmar que uma sequência específica de eventos já foi demonstrada em todas as pacientes.

A ideia que considero mais útil é evitar uma disputa em que uma teoria precise eliminar as outras. Ao mesmo tempo, cada proposta precisa ser avaliada pelas evidências que realmente a sustentam.

Disseminação linfática e hematogênica

Outra pergunta importante é como células relacionadas à endometriose poderiam alcançar locais distantes. As hipóteses de disseminação linfática e hematogênica discutem justamente possíveis vias de transporte.

O que propõe a teoria linfática?

O sistema linfático participa da drenagem dos tecidos e da defesa do organismo. Seus vasos conduzem a linfa, e os linfonodos, conhecidos popularmente como gânglios, fazem parte dessa rede.

A identificação de tecido endometriótico em linfonodos sustenta a investigação da participação dessa via. A hipótese considera que células possam entrar na circulação linfática e alcançar outras regiões.

Imagem ilustrativa da teoria linfática, para o artigo sobre Qual a origem da endometriose

O que propõe a teoria hematogênica?

Hematogênica significa relacionada ao transporte pelo sangue. Nesse modelo, células alcançariam a circulação sanguínea e poderiam chegar a regiões afastadas da pelve.

Essa possibilidade é especialmente relevante na investigação de manifestações extrapelvianas raras a distância como púlmão e cérebro.Em resumo, circulação linfática e sanguínea oferecem mecanismos possíveis para explicar parte da distribuição da doença.

Teoria hematogênica, para o artigo sobre Qual a origem da endometriose

Genética e herdabilidade de cerca de 50%

A genética ajuda a integrar a discussão sobre a origem da endometriose. Ela trata da predisposição para desenvolver a doença, e não de uma rota física que leva células de um órgão a outro.

Estudos familiares e com gêmeas sustentam uma participação genética importante. A literatura descreve herdabilidade estimada em cerca de 50%; um estudo genético publicado na Nature Genetics cita uma estimativa próxima de 51%. Você pode consultar o estudo sobre associação genética e endometriose.

Outros estudos em genética associam um risco aumentado de 5-7x em familiares de primeiro portadoras de endometriose. Se considerarmos o risco da população geral em idade fértil em torno de 10%, isso significa risco potencial altíssimo para pacientes que possuem familiares de primeiro grau portadoras de endometriose.

Especialmente naquelas que tem sintomas sugestivos de endometriose, o Valor Preditivo Positivo para ser portadora da doença é muito elevado e preocupante.

Ter uma familiar com endometriose muda o que na prática?

O histórico familiar é uma informação relevante para a consulta. Vale informar se mãe, irmã ou filha recebeu o diagnóstico, principalmente quando existem sintomas semelhantes. Isso ajuda a contextualizar a avaliação, sem substituir a investigação clínica.

Por outro lado, não conhecer casos na família não exclui a doença. Algumas familiares podem nunca ter sido diagnosticadas, e a predisposição genética não é o único componente envolvido. A avaliação precisa considerar a pessoa, não apenas sua árvore familiar.

Como hormônios, inflamação e células se relacionam?

Uma teoria sobre o surgimento das células fora do útero não explica necessariamente tudo o que acontece depois. Para entender a persistência das lesões, a pesquisa também examina sinalização hormonal, resposta imunológica, inflamação e características das próprias células.

A revisão de Wang, Nicholes e Shih sobre origem e desenvolvimento da endometriose, que integra as referências do meu material, discute também células progenitoras e mecanismos moleculares. Esse campo amplia a investigação para além do simples transporte de fragmentos menstruais ou resquícios embriológicos.

Assim, é útil separar três aspectos: o surgimento ou a chegada das células, a predisposição individual e as condições que permitem que a lesão persista. Eles podem se relacionar, mas não são sinônimos.

Essa distinção também evita uma conclusão equivocada: identificar um mecanismo biológico não significa que já exista um exame capaz de determinar a origem exata da endometriose de cada paciente ou um tratamento único dirigido a essa origem.

O que esse conhecimento muda para a paciente?

Entender os mecanismos ajuda a interpretar a doença sem procurar uma explicação única para todas as situações. Entretanto, a escolha do cuidado depende da avaliação individual, dos sintomas, dos achados e dos objetivos da paciente. Não se escolhe uma cirurgia ou um medicamento apenas pela preferência por determinada teoria.

Se você quer entender a investigação, o artigo sobre diagnóstico de endometriose complementa esta leitura. Aqui, o foco é explicar os mecanismos propostos, e não substituir uma consulta ou um plano de tratamento.

Para conhecer o atendimento e as abordagens disponíveis, consulte a página sobre avaliação especializada em endometriose. Levar o histórico familiar e as principais dúvidas para a consulta ajuda a tornar a conversa mais objetiva.

❓ FAQ — Perguntas frequentes sobre Origem da endometriose

1. A endometriose tem uma causa única?

Não. Diferentes mecanismos são propostos, e nenhuma teoria isolada explica todas as apresentações da doença. A causa exata de cada caso geralmente não pode ser determinada.

2. Menstruação retrógrada significa ter endometriose?

Não. O refluxo menstrual pode ocorrer sem endometriose. A hipótese envolve também condições que permitem a sobrevivência, a implantação e a persistência das células fora do útero.

3. A teoria embrionária significa que toda paciente nasceu com as lesões?

Não. Essa hipótese investiga a participação de células relacionadas ao desenvolvimento embrionário. Ela não comprova que toda paciente nasceu com todas as lesões que apresentará.

4. Posso ter endometriose sem casos conhecidos na família?

Sim. A ausência de histórico familiar conhecido não exclui endometriose. A genética é parte de um quadro complexo e não substitui a avaliação clínica.

5. Saber a teoria de origem define o tratamento?

Não. O tratamento depende da avaliação individual, dos sintomas, dos achados e dos objetivos da paciente, e não apenas de uma hipótese sobre a origem da doença.

Conclusão sobre Origem da endometriose

Equipe do Dr. Vinicius para ilustarr o artigo sobre qual a origem da endometriose

A origem da endometriose exige uma visão que reúna diferentes mecanismos. Menstruação retrógrada, hipóteses embrionárias e possíveis vias de disseminação oferecem explicações para aspectos distintos da doença, sem que uma delas resolva todos os casos.

A predisposição genética faz parte desse entendimento. Manter o conceito de herdabilidade próxima de 50% é importante, desde que ele venha acompanhado de sua definição: uma estimativa populacional, e não a chance individual de uma familiar desenvolver endometriose.

Na prática, conhecer essas hipóteses deve melhorar a compreensão e a conversa com o médico. Não deve gerar previsões sobre a evolução de uma pessoa nem levar à escolha de tratamento sem avaliação.

Se você tem dúvidas sobre endometriose ou sobre o histórico da sua família, procure avaliação ginecológica. O próximo passo é relacionar essas informações ao seu quadro, com orientação individualizada e sem transformar uma hipótese de origem em um diagnóstico por conta própria.

Referências Bibliográficas:

1 – WANG, Yeh; NICHoles, Kristen; SHIH, Ie-Ming. The origin and pathogenesis of endometriosis. Annual Review of Pathology: Mechanisms of Disease, v. 15, p. 71-95, 2020. DOI: 10.1146/annurev-pathmechdis-012419-032654.

2 – MAKIYAN, Zograb. Endometriosis origin from primordial germ cells. Organogenesis, v. 13, n. 3, p. 95-102, 2017. DOI: 10.1080/15476278.2017.1323162.

3 – NEZHAT, Camran; NEZHAT, Farr; NEZHAT, Ceana. Endometriosis: ancient disease, ancient treatments. Fertility and Sterility, v. 98, n. 6, suplemento, p. S1-S62, 2012.

Entre em contato com o Dr. Vinícius Araujo!

Dr. Vinícius Araújo Cirurgião Ginecológico de Alta Complexidade, Especialista em Endometriose.

Artigo escrito pelo próprio Dr. Vinícius Araújo

Cirurgião Ginecológico de Alta Complexidade, Especialista em Endometriose e Miomas, que atua no Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
CRM 52 – 98.297-0 / RQE – 33.293 / RQE – 33.294 / RQE: 41.394 / RQE: 61901

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Foto de Dr. Vinicius Araújo

Dr. Vinicius Araújo

Autor deste artigo | Cirurgião Geral | Ginecologista e Obstetra