Apareceu no seu exame de ressonância ou ultrassom a expressão endometriose nos ligamentos uterossacros, “espessamento dos ligamentos uterossacros” ou “acometimento dos uterossacros”? É muito comum que esse resultado gere preocupação, principalmente porque poucas pacientes sabem exatamente onde esses ligamentos ficam e qual a importância deles para o funcionamento da pelve.
Sou o Dr. Vinicius Araújo, cirurgião ginecológico com especialização em Miomas Complexos e seu tratamento cirúrgico por via minimamente invasiva. Atuo no Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
Neste artigo, vou explicar o que são os ligamentos uterossacros, por que eles são frequentemente acometidos pela endometriose, quais sintomas costumam provocar, como essa alteração aparece nos exames de imagem e quando pode haver indicação de tratamento clínico ou cirúrgico.
O que são os ligamentos uterossacros?
Antes de entender o que significa ter endometriose nessa região, precisamos conhecer um pouco da anatomia da pelve.
Como o próprio nome sugere, os ligamentos uterossacros são estruturas que unem o útero ao osso sacro, localizado na porção final da coluna vertebral.
Sua principal função é ajudar a manter o útero na posição correta dentro da pelve, oferecendo sustentação ao órgão durante os movimentos do corpo e também ao longo das diferentes fases da vida da mulher, como gravidez e parto.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, esses ligamentos não são semelhantes aos ligamentos do joelho ou do tornozelo.
Na verdade, eles representam um espessamento da fáscia endopélvica, um tecido de sustentação presente na pelve, rico em fibras conjuntivas e capaz de acompanhar naturalmente os movimentos do útero.
Essa elasticidade permite que o útero se movimente de forma fisiológica sem perder sua estabilidade.
É justamente por fazer parte desse complexo sistema de sustentação que o acometimento dos ligamentos uterossacros pode provocar sintomas importantes, principalmente relacionados à dor.
Onde ficam os ligamentos uterossacros?

Os ligamentos uterossacros estão localizados na região mais profunda da pelve, estendendo-se da parte posterior do colo do útero até o sacro.
Essa posição anatômica faz com que eles estejam muito próximos de diversas estruturas importantes.
Entre elas podemos destacar:
- Ureteres, responsáveis por levar a urina dos rins até a bexiga.
- Nervos da pelve, incluindo os plexos hipogástricos.
- Reto e porção final do intestino grosso.
- Fundo da vagina e colo uterino.
Essa proximidade explica por que a endometriose localizada nessa região pode produzir sintomas bastante variados e, ao mesmo tempo, torna o tratamento cirúrgico mais delicado.
Além disso, os ligamentos uterossacros fazem parte do chamado compartimento posterior da pelve, uma das regiões mais frequentemente acometidas pela endometriose profunda.
Por que a endometriose acomete os ligamentos uterossacros?
A endometriose profunda caracteriza-se pela infiltração do tecido semelhante ao endométrio em estruturas localizadas abaixo da superfície do peritônio.
Os ligamentos uterossacros estão entre os locais mais frequentemente afetados por esse tipo de doença.
Isso acontece porque eles fazem parte da região posterior da pelve, área onde também são comuns lesões retrocervicais, intestinais e do fundo de saco de Douglas.
Com o passar do tempo, o processo inflamatório provocado pela endometriose pode levar ao espessamento dos ligamentos, formação de fibrose e desenvolvimento de nódulos.
Essas alterações diminuem a elasticidade natural da estrutura e fazem com que sua movimentação passe a provocar dor.
É justamente por esse motivo que muitas pacientes apresentam sintomas durante a relação sexual, durante o exame ginecológico ou até mesmo em atividades do dia a dia.
Quais sintomas a endometriose nos ligamentos uterossacros pode causar?
Os sintomas dependem da extensão da doença e da intensidade do processo inflamatório.
Algumas pacientes apresentam poucas manifestações, enquanto outras desenvolvem um quadro de dor bastante significativo.
Entre os sintomas mais comuns estão a dor pélvica crônica, cólicas menstruais intensas, dor lombar e desconforto profundo durante a relação sexual.
Entretanto, existe um sintoma bastante característico do acometimento dos ligamentos uterossacros: a dor durante a penetração profunda.
Isso acontece porque, durante a relação sexual, ocorre movimentação do colo uterino e, consequentemente, tração desses ligamentos.
Quando existe endometriose infiltrando essa região, esse movimento pode desencadear uma dor intensa, frequentemente descrita pelas pacientes como uma pontada profunda ou uma cólica muito forte.
Esse mesmo mecanismo também explica a dor provocada durante o exame ginecológico em algumas mulheres.
Embora esse seja um dos sintomas mais característicos, ele não está presente em todos os casos.
Algumas pacientes descobrem a doença apenas durante a investigação de infertilidade ou após a realização de exames de imagem solicitados por outros motivos.
Como a endometriose nos ligamentos uterossacros aparece nos exames?
Atualmente, os dois principais exames utilizados para investigar essa região são o ultrassom com preparo para endometriose e a ressonância magnética com preparo.
Ambos apresentam excelente desempenho quando realizados por profissionais experientes.
A visualização dos ligamentos uterossacros costuma ser bastante sutil.
Por esse motivo, não basta apenas realizar o exame. É fundamental que ele seja interpretado por um médico habituado ao diagnóstico da endometriose profunda.
Quando o profissional possui experiência nessa área, é possível identificar alterações como:
- Espessamento dos ligamentos uterossacros.
- Nódulos infiltrativos.
- Perda da anatomia habitual da região.
- Sinais de fibrose e aderências.
Esses achados ajudam a mapear a extensão da doença e a orientar o planejamento do tratamento.
O papel do ultrassom com preparo
O ultrassom com preparo oferece uma vantagem muito interessante nessa avaliação.
Como se trata de um exame dinâmico, realizado em tempo real, o especialista consegue mobilizar as estruturas da pelve durante o procedimento.
Além de visualizar o ligamento, é possível observar sua mobilidade, pesquisar aderências e até correlacionar diretamente a dor referida pela paciente com a região examinada.
Na prática, isso acrescenta informações funcionais que vão além da simples identificação anatômica da lesão.
O papel da ressonância magnética
A ressonância magnética também desempenha papel fundamental na investigação da endometriose profunda.
Ela costuma oferecer excelente avaliação das estruturas localizadas mais profundamente na pelve e permite analisar simultaneamente outros possíveis locais de acometimento.
Além dos ligamentos uterossacros, a ressonância consegue avaliar com bastante precisão estruturas como o intestino, a bexiga, os ureteres, o diafragma e outras áreas menos comuns de infiltração.
Por isso, muitas vezes os dois exames são complementares, principalmente quando existe suspeita de doença extensa.
O exame físico também pode identificar essa alteração?
Sim.
Um dos pontos mais interessantes da avaliação da endometriose é que o exame físico continua tendo enorme importância, mesmo com toda a evolução dos exames de imagem.
Durante o toque vaginal, conseguimos mobilizar o colo do útero e avaliar diretamente os ligamentos uterossacros.
Em uma paciente sem doença, essa mobilização costuma provocar apenas um leve desconforto ou nenhuma dor.
Por outro lado, quando existe endometriose infiltrando esses ligamentos, a resposta costuma ser bastante diferente.
É comum que a paciente relate uma dor intensa, localizada profundamente na pelve, semelhante àquela que sente durante a penetração profunda nas relações sexuais.
Essa correlação entre os sintomas, o exame físico e os exames de imagem é um dos pilares do diagnóstico da endometriose.
Ela permite que o tratamento seja planejado de forma muito mais precisa, respeitando tanto a localização das lesões quanto o impacto que elas realmente causam na qualidade de vida da paciente.

Tratamento clínico da endometriose nos ligamentos uterossacros
O tratamento da endometriose nos ligamentos uterossacros segue o mesmo raciocínio utilizado para outras formas da doença.
Quando os sintomas são leves ou moderados, a primeira abordagem costuma ser o tratamento clínico com bloqueio hormonal. O objetivo é reduzir a atividade da doença, diminuir a inflamação e aliviar a dor.
Podem ser utilizados anticoncepcionais hormonais, progestagênios e outras estratégias individualizadas de acordo com o perfil da paciente.
É importante entender que o tratamento clínico controla a doença, mas não remove a lesão. Por esse motivo, algumas pacientes apresentam melhora importante dos sintomas, enquanto outras continuam com dor mesmo utilizando medicações adequadamente.
A decisão entre tratamento clínico e cirúrgico depende da intensidade dos sintomas, da extensão da doença, do desejo reprodutivo e do impacto na qualidade de vida.
Quando a cirurgia é indicada?
A cirurgia passa a ser considerada quando existe dor persistente apesar do tratamento clínico, comprometimento importante da qualidade de vida, suspeita de acometimento profundo ou necessidade de tratamento associado de outras áreas acometidas pela endometriose.
Nos ligamentos uterossacros, o objetivo cirúrgico é remover completamente o segmento acometido pela doença, preservando as demais estruturas da pelve.
Isso é especialmente importante nos casos de dor na relação sexual profunda, dor pélvica intensa e lesões infiltrativas identificadas nos exames.
Ao contrário do que muitas pacientes imaginam, a retirada da porção acometida dos ligamentos uterossacros não costuma causar perda da sustentação do útero, porque essa sustentação depende de um conjunto de estruturas e não apenas desses ligamentos isoladamente.
Como é feita a cirurgia dos ligamentos uterossacros?
Na maioria dos casos, a cirurgia é realizada por videolaparoscopia ou cirurgia robótica, técnicas minimamente invasivas que permitem excelente visualização das estruturas profundas da pelve.
Durante o procedimento, o cirurgião identifica toda a extensão da lesão e realiza a remoção excisional completa da doença.
O objetivo não é apenas cauterizar a superfície da lesão, mas retirar o tecido infiltrado responsável pela dor e pela inflamação.
Essa etapa exige planejamento detalhado, principalmente quando existem lesões associadas em intestino, ureter ou outras regiões da pelve.
Por que essa cirurgia exige tanta experiência?
Esse é um dos pontos mais importantes do artigo.
Os ligamentos uterossacros ficam muito próximos de estruturas nobres da pelve, principalmente ureteres, nervos pélvicos e plexos hipogástricos.
Por esse motivo, a cirurgia deve ser realizada com extrema precisão.
Lesões do ureter podem levar a complicações urinárias importantes, incluindo fístulas e necessidade de procedimentos adicionais.
Já lesões dos plexos nervosos podem provocar alterações do controle da micção e dos esfíncteres.
Consequentemente, não se trata apenas de retirar a endometriose. É necessário remover a doença preservando estruturas fundamentais para o funcionamento urinário e intestinal da paciente.
Por esse motivo, sempre que houver indicação cirúrgica, é fundamental procurar uma equipe habituada ao tratamento da endometriose profunda.
O principal problema muitas vezes não é a recidiva
Uma observação muito importante é que muitas pacientes recebem o diagnóstico de “recidiva” quando, na verdade, apresentam doença residual de uma cirurgia incompleta.
Quando parte da lesão permanece na pelve, os sintomas podem continuar ou retornar em pouco tempo.
Além disso, uma segunda cirurgia costuma ser mais difícil do que a primeira.
O processo cicatricial já instalado reduz os planos anatômicos naturais, aumenta a fibrose e torna a dissecção mais delicada.
Consequentemente, o risco de complicações e a dificuldade técnica aumentam de forma significativa.
Por esse motivo, o planejamento adequado da primeira cirurgia é tão importante.
Quando devo procurar um especialista?
Vale a pena procurar avaliação especializada quando o exame descreve espessamento dos ligamentos uterossacros, nódulos retrocervicais, endometriose profunda ou quando existe dor importante durante a relação sexual profunda.
Também é importante buscar avaliação quando há cólicas intensas, dor pélvica crônica ou sintomas associados intestinais e urinários.
Nesses casos, a correlação entre história clínica, exame físico e exames de imagem faz toda a diferença na definição do melhor tratamento.
FAQ – perguntas frequentes sobre endometriose nos ligamentos uterossacros
Significa que os ligamentos estão mais espessos do que o habitual, podendo representar fibrose ou infiltração por endometriose.
Esse achado deve sempre ser interpretado junto aos sintomas e ao exame físico.
Não. Muitas pacientes podem ser tratadas inicialmente com bloqueio hormonal.
A cirurgia é indicada quando os sintomas persistem, a doença é profunda ou existe impacto importante na qualidade de vida.
Sim. Esse é um dos sintomas mais característicos.
A movimentação do colo do útero durante a penetração profunda pode tracionar os ligamentos acometidos e provocar dor intensa.
Sim. O ultrassom com preparo para endometriose realizado por especialista pode identificar espessamento, nódulos e aderências, além de correlacionar a dor com a região examinada.
Em geral, não. A sustentação uterina depende de várias estruturas da pelve.
Quando a retirada é feita corretamente e apenas na área acometida pela doença, o objetivo é aliviar os sintomas sem comprometer a função do útero.
Dica de leitura complementar sobre endometriose
Se você ainda tem dúvidas sobre a doença, clique aqui para ler o meu artigo guia completo sobre endometriose, onde explico de forma clara os sintomas, diagnóstico e todas as opções de tratamento.
Conclusão sobre endometriose nos ligamentos uterossacros
Receber no exame a descrição de endometriose nos ligamentos uterossacros pode assustar, mas esse achado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico da paciente.
Esses ligamentos fazem parte das estruturas profundas da pelve e estão entre os locais mais frequentemente acometidos pela endometriose profunda. Quando infiltrados pela doença, podem provocar dor pélvica, dor na relação sexual profunda e sensibilidade importante ao exame ginecológico.
O diagnóstico adequado depende da combinação entre sintomas, exame físico e exames de imagem realizados por especialistas.
Quando existe indicação de cirurgia, o planejamento cuidadoso e a remoção completa da doença fazem grande diferença no controle dos sintomas e na redução da necessidade de novos procedimentos.
Se o seu ultrassom ou ressonância mostrou espessamento dos ligamentos uterossacros ou suspeita de endometriose profunda, procure avaliação com um especialista habituado ao tratamento dessa doença. Uma análise individualizada é o passo mais importante para definir o melhor tratamento para o seu caso.
A endometriose pode acometer diferentes órgãos e estruturas da pelve. Por isso, compreender a doença de forma ampla é fundamental para um diagnóstico precoce e um tratamento adequado. O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) disponibiliza uma página com informações gerais sobre endometriose para pacientes.
Referencias Bibliográficas:
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