Como a endometriose gera sintomas, entenda os mecanismos

Mulher sentada no sofá com a mão no abdômen, ilustrando sintomas da endometriose no cotidiano.

Tenho endometriose, achava que os sintomas eram apenas cólica e sangramento. Mas tenho vários outros sintomas. Afinal, como a endometriose gera sintomas? Quais são os mecanismos dessa doença que me traz tanto prejuízo em qualidade de vida?

Essas perguntas ajudam a entender por que não podemos olhar apenas para a cólica menstrual. A localização das lesões, a participação dos nervos e a inflamação podem contribuir de maneiras diferentes. Vamos entender cada um desses mecanismos?

Sou o Dr. Vinícius Araújo, cirurgião ginecológico com especialização em endometriose, incluindo casos complexos com acometimento intestinal, urinário e de estruturas profundas da pelve. Atuo no Rio de Janeiro, RJ – Brasil.

Como a endometriose gera sintomas além da cólica

Primeiro e mais importante, vamos nos situar e entender o que exatamente a endometriose é. Para entendermos isso, devemos entender o que é o endométrio.

O endométrio é a camada interna que cobre o interior da cavidade uterina. Ao longo do ciclo, ele cresce e se torna mais vascularizado, preparando-se para receber o embrião. Caso a paciente não engravide, ele inicia a descamar e desce do útero em forma de menstruação.

A endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Assim, esse tecido pode responder às variações hormonais e provocar inflamação. Só entendendo isso, já conseguimos entender muito dos sintomas!

Esquema do endométrio para compreender como a endometriose gera sintomas.
Endométrio, a camada interna do útero.

Para uma visão geral da doença, veja também o conteúdo sobre endometriose. Aqui, vamos nos concentrar em como ela pode produzir sintomas nos órgãos, nos nervos e no organismo.

Como a endometriose gera sintomas no órgão acometido

Esse é um dos mecanismos mais comuns de geração de sintomas e um dos mais fáceis de compreender. A endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, certo? Quando esse tecido se instala em outro órgão, ele pode inflamar e apresentar pequenos sangramentos durante o ciclo menstrual, causando irritação e sintomas locais.

O que mais vai depender é em qual órgão esse tecido está instalado. Quando nos ligamentos do útero e nas estruturas próximas, podemos ter principalmente o sintoma de cólica menstrual. Já a presença de tecido semelhante ao endométrio dentro da musculatura do próprio útero recebe o nome de adenomiose, uma condição diferente que pode coexistir com a endometriose.

Quando a endometriose atinge outros órgãos, como a bexiga, podemos ter sintomas urinários, aumento da frequência urinária e mesmo dor ao urinar. O acometimento da bexiga, mesmo que superficial, pode causar importantes sintomas!

O mesmo acontece quando há acometimento do intestino. Ele pode gerar intensos sintomas intestinais, como diarreia, constipação e dor em fisgada no ânus na hora de evacuar. Quando o acometimento é do diafragma, podemos ter como sintomas a dor no ombro e na escápula, mais comumente à direita.

Entretanto, esses sintomas não confirmam, sozinhos, a localização de uma lesão. Por isso, a consulta e a investigação ajudam a distinguir a endometriose de outras possíveis causas.

Sintomas da endometriose nas terminações nervosas autonômicas

Antes de tudo, vamos entender o que são os nervos autonômicos do corpo. Esse grupo de nervos participa da inervação das vísceras e do controle de funções dos órgãos pélvicos, como bexiga, intestino e útero, além de funções sexuais.

Essas vias incluem fibras com origem nas regiões toracolombar e sacral. Para entender como a endometriose gera sintomas, precisamos considerar sua interferência nesses nervos e nas estruturas próximas. Vamos entender o motivo?

Esquema dos nervos autonômicos da pelve masculina e de sua relação com os órgãos pélvicos.
Esquema anatômico da inervação pélvica em uma pelve masculina, utilizado aqui para ilustrar a organização dos nervos autonômicos.

Especialmente o nervo hipogástrico passa muito próximo a estruturas que a endometriose pode acometer, como os ligamentos uterossacros. Além disso, ele está anatomicamente muito próximo da folha peritoneal que cobre a pelve.

Quando temos acometimento do ligamento uterossacro ou do peritônio acima dos nervos, podemos ter irritação das terminações durante o ciclo menstrual. E, além disso, também podemos ter comprometimento e enrijecimento do peritônio levando ao encarceramento desses nervos, o que é bem doloroso!

Como sintomas principais, podemos ter dores associadas a náuseas, vômitos e sensação de desmaio. Além disso, podemos ter uma dor lombar baixa, quase na nádega. Outro sintoma menos comum é a dor durante o orgasmo, o que chamamos de disorgasmia. Portanto, essas manifestações merecem atenção, mas não identificam, isoladamente, qual nervo está envolvido.

O acometimento dos nervos autonômicos pode produzir sintomas aos quais devemos atentar durante a consulta clínica. Para aprofundar esse ponto, leia sobre endometriose no nervo hipogástrico.

Por que podem surgir sintomas sem lesão direta no órgão?

Outro ponto interessante do acometimento autonômico é que ele pode gerar sintomas em órgãos que não estão diretamente acometidos por endometriose. Como funciona? Esses nervos autonômicos são responsáveis pela inervação dos órgãos pélvicos, certo?

Quando a doença os acomete, o cérebro pode perceber o sinal doloroso como vindo da região ou do órgão relacionado àquela via nervosa. Ou seja, a participação dessas vias pode contribuir para importantes sintomas urinários, intestinais, uterinos e clitorianos.

É como um fio desencapado com a lesão dando choque, o sinal recebido é totalmente perturbado! Essa comparação ajuda a entender por que sentir dor em uma região não significa, obrigatoriamente, encontrar uma lesão diretamente naquele órgão.

Sintomas da endometriose nas terminações nervosas somáticas

Além dos nervos autonômicos da pelve, também possuímos os nervos somáticos. Mas o que são esses nervos? Os nervos somáticos são aqueles que inervam músculos, tendões e a pele diretamente. Esses nervos basicamente se dividem, portanto, em sensitivos e motores. A endometriose pode acometê-los, apesar de esse acometimento ser menos comum.

Plexo sacral, nervos ciático e pudendo, envolvidos na explicação dos sintomas da endometriose.
Esquema do plexo sacral e de seus ramos.

Quando esse acometimento acontece, podemos ter dor em dermátomos bem definidos daquela raiz. Dermátomo é uma área da pele relacionada a uma determinada raiz nervosa. Assim, esse padrão ajuda a avaliar como a endometriose gera sintomas quando há acometimento nervoso.

Também podemos ter alterações motoras e fraqueza em músculos que esses nervos inervam diretamente. O acometimento desses nervos é diferente do dos nervos autonômicos. Ele normalmente provoca uma sensação de choque ou pontada e uma dor muito bem delimitada quanto à localização.

As regiões de acometimento dos dermátomos podem incluir a região glútea, a região inferior da pelve, a região interna das coxas, a vulva e o monte pubiano. Quando temos acometimento de raízes profundas, podemos ter dor em região posterior de coxa e perna, irradiando como uma dor do nervo ciático.

Por isso, vale contar ao médico onde a dor começa, por onde ela passa e se aparece junto com fraqueza ou alteração da sensibilidade. Outras condições também podem provocar esse padrão de dor, de modo que a investigação precisa considerar o conjunto da história clínica.

Como a endometriose gera sintomas pela inflamação

Uma outra via pela qual a doença causa sintomas é a da inflamação. Sabe todos aqueles focos de endometriose fora do útero, que podem inflamar, doer e sangrar durante o ciclo? A inflamação que acontece na pelve pode ser muito grande e contribuir para sintomas sistêmicos, isto é, que afetam o organismo além da região da lesão.

Por vezes, não precisamos nem de um volume tão grande de lesões e já podemos ter inflamação o suficiente para contribuir para os sintomas. Ou seja, a intensidade do sofrimento não acompanha necessariamente o tamanho ou a extensão das lesões.

Profissionais em um centro cirúrgico observando um monitor.

Fadiga e outros sintomas da inflamação

Os sintomas são bem conhecidos pela paciente com endometriose, especialmente a fadiga e o cansaço. A paciente dorme bem, come bem, mas está sempre fatigada, acorda cansada. É como se ela estivesse fazendo um esforço invisível e, na verdade, esse sofrimento é real!

A inflamação causada inicialmente na pelve produz inúmeros mediadores inflamatórios que chegam à corrente sanguínea e podem contribuir para esses sintomas. Não é a paciente que está mole ou fingindo um sintoma. Por isso, sua queixa de fadiga e cansaço precisa de atenção.

Ao mesmo tempo, a fadiga pode ter mais de um fator envolvido. Dor persistente, alterações do sono e deficiência de ferro, por exemplo, também podem contribuir. Portanto, não devemos atribuir automaticamente todo cansaço apenas à inflamação da endometriose.

Além desses sintomas, também merecem atenção alterações no número de células do sangue, perda de cabelo e fraqueza nas unhas. No entanto, esses achados são inespecíficos e não devem funcionar como sinais diagnósticos de endometriose. Quando aparecem, precisam de avaliação para investigar outras causas, inclusive condições que possam coexistir com a doença.

A endometriose não é brincadeira e pode gerar impactos à distância, especialmente nas formas muito sintomáticas da doença. Por isso, valorizar esses relatos é parte importante do cuidado.

O estudo de Gete e colaboradores sobre endometriose e sintomas também encontrou associação com manifestações além das menstruais, incluindo cansaço e queixas intestinais e urinárias. Associação, porém, não significa que toda queixa tenha uma causa única.

O que observar e levar à consulta

Depois de entender como a endometriose gera sintomas, fica mais fácil perceber por que precisamos ouvir toda a história, e não apenas perguntar se existe cólica. Procure registrar alguns pontos para conversar com seu médico.

  • Onde a dor começa e para quais regiões ela se espalha.
  • Se há relação com a menstruação ou se os sintomas também aparecem em outros momentos.
  • Se urinar, evacuar, ter relação sexual ou chegar ao orgasmo desencadeia dor.
  • Se existem fadiga, fraqueza muscular ou alterações de sensibilidade.
  • Como esses sintomas interferem no trabalho, no sono e nas atividades cotidianas.

Se a dor se mantém ou se repete ao longo dos meses, vale entender também a relação entre dor pélvica crônica e endometriose. Assim, o objetivo da avaliação é compreender como a endometriose gera sintomas em cada paciente, sem concluir o diagnóstico apenas por uma lista de sintomas.

❓ FAQ — Perguntas frequentes sobre como a endometriose gera sintomas

1- Como a endometriose gera sintomas além da cólica?

A doença pode provocar inflamação nos órgãos acometidos, interferir em vias nervosas e contribuir para manifestações sistêmicas, como fadiga. Esses mecanismos podem coexistir e variar de uma paciente para outra.

2- Posso ter sintomas intestinais ou urinários sem lesão direta nesses órgãos?

Sim. A participação de nervos e de processos inflamatórios pode contribuir para sintomas sem invasão direta do órgão. Porém, outras condições também causam essas queixas, e a avaliação clínica precisa considerar essas possibilidades.

3- A endometriose pode causar dor que irradia para a perna?

Pode, especialmente quando há envolvimento de estruturas nervosas. Dor em choque, pontada, alteração de sensibilidade ou fraqueza precisam de investigação. Dor irradiada, sozinha, não confirma endometriose.

4- A fadiga pode estar relacionada à endometriose?

Sim. Algumas pacientes relatam cansaço importante, e a inflamação pode contribuir. No entanto, dor, sono e outras condições, como deficiência de ferro, também precisam de avaliação. Não devemos desvalorizar a queixa nem atribuí-la automaticamente a uma única causa.

5- Lesões pequenas podem causar sintomas intensos?

Podem. A intensidade dos sintomas não depende apenas do tamanho das lesões. A localização, a relação com os nervos e a resposta inflamatória também importam. O relato da paciente deve fazer parte da avaliação, junto com o exame clínico e os exames indicados.

Conclusão sobre como a endometriose gera sintomas

Entender como a endometriose gera sintomas ajuda a enxergar a doença além da cólica menstrual. O órgão acometido pode produzir manifestações locais, enquanto a participação dos nervos pode gerar dor, alterações de sensibilidade e sintomas em regiões sem lesão direta. A inflamação, por sua vez, pode contribuir para o cansaço e para um impacto mais amplo na qualidade de vida.

Esses mecanismos não funcionam necessariamente de forma isolada. Uma mesma paciente pode apresentar mais de um deles, e o tamanho das lesões não resume a intensidade do que ela sente. Por isso, precisamos valorizar as queixas, compreender sua relação com o ciclo menstrual e observar o que acontece ao urinar, evacuar ou durante a atividade sexual.

Ao mesmo tempo, reconhecer essa variedade não significa atribuir todos os sintomas à endometriose. Fadiga, dores irradiadas, queda de cabelo e alterações urinárias ou intestinais também podem ter outras causas. Por isso, investigar essas possibilidades faz parte de um cuidado individualizado e responsável.

Se você percebe mudanças persistentes ou sintomas que prejudicam sua rotina, leve esses relatos à consulta. Mais do que procurar uma explicação única para tudo, precisamos reunir a história clínica, a avaliação e os exames indicados para entender o seu caso. Seu sofrimento merece atenção, e compreender de onde ele vem é um passo importante para definir o acompanhamento.

Referências Bibliográficas:

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2 – GETE, Dereje G.; DOUST, Jenny; MORTLOCK, Sally; MONTGOMERY, Grant; MISHRA, Gita D. Associations between endometriosis and common symptoms: findings from the Australian Longitudinal Study on Women’s Health. American Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 230, n. 2, p. 187.e1–187.e10, 2024. DOI: 10.1016/j.ajog.2023.07.033.

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Dr. Vinícius Araújo Cirurgião Ginecológico de Alta Complexidade, Especialista em Endometriose.

Artigo escrito pelo próprio Dr. Vinícius Araújo

Cirurgião Ginecológico de Alta Complexidade, Especialista em Endometriose e Miomas, que atua no Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
CRM 52 – 98.297-0 / RQE – 33.293 / RQE – 33.294 / RQE: 41.394 / RQE: 61901

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Foto de Dr. Vinicius Araújo

Dr. Vinicius Araújo

Autor deste artigo | Cirurgião Geral | Ginecologista e Obstetra