Endometriose e gestação? Tenho endometriose, vou conseguir engravidar? A gestação trata a endometriose? Engravidei com endometriose, meu filho corre risco de algum tipo de má formação? Engravidei com endometriose, tenho maior chance de perder a gestação? Aumenta algum risco na gravidez com endometriose? Vem comigo que você vai entender melhor!
Sou o Dr. Vinícius Araújo, cirurgião ginecológico com especialização em endometriose, incluindo casos complexos com acometimento intestinal, urinário e de estruturas profundas da pelve. Atuo no Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
Tenho endometriose, vou conseguir engravidar?
Cuidado! Muitas pacientes acham que por ter endometriose não vão conseguir engravidar e acabam ficando desleixadas com métodos anticoncepcionais. E engravidam! Então temos que entender que até mesmo as pacientes com endometriose grave, graus III e IV, vão conseguir engravidar em torno de 50% das vezes.

A endometriose é sim muito ligada a infertilidade e devemos sempre fazer o planejamento fértil dessas pacientes. Muitos casais vão se descobrir inférteis durante a jornada da endometriose e poderão precisar de cirurgia ou reprodução assistida. Como doença de alto risco para fertilidade, muitas vezes iremos adiantar exames de propedêutica de fertilidade antes mesmo da paciente iniciar a tentar engravidar. Busque um especialista na doença para avaliação e faça seu planejamento familiar. Pode ser vital para sua capacidade futura de gestar.
A gestação trata a endometriose?
Médicos antigos diziam que para as mulheres que tinham muitas cólicas que era só engravidar que melhoraria. Esse é um conceito bastante antigo na medicina, aparecendo em papiros médicos do egito antigo! Mas será que faz sentido?

O pior é que faz! Todos os tratamentos da endometriose são baseados no uso de progesteronas para inibir o ciclo menstrual e decidualizar as lesões de endometriose. E o que acontece durante toda a gestação e amamentação? A mulher fica com níveis altíssimos de progesterona circulando no sangue, o que explica a melhora dos sintomas na maioria dos casos.
No primeiro trimestre o responsável é o corpo lúteo e posteriormente a placenta. Após o nascimento, o estímulo de sucção no mamilo mantém essa produção aumentada de progesterona. Essa progesterona atinge concentrações altíssimas que a paciente não aguentaria na forma oral, porém com as modificações do período puerperal ela consegue suportar.
O bloqueio profundo realizado pela gestação inibe o estrogênio e decidualiza as lesões de endometriose levando a uma melhora importante dos sintomas. Mas e quando passa o período da amamentação, a doença fica tratada?
Depois da gestação e da amamentação
Infelizmente não! A gravidez, assim como os anticoncepcionais, não trata diretamente a endometriose. Ela apenas “desliga” as lesões, fazendo com que fiquem menos ativas e sintomáticas. Passou o período da gestação-amamentação? Parou o anticoncepcional? A tendência é o retorno dos sintomas iguais ao que tínhamos antes! Infelizmente…
Engravidei com endometriose, meu filho corre risco de algum tipo de má formação?
Esse é um medo muito comum ao casal que deseja engravidar e a paciente tem endometriose! Porém, apesar de ser um medo válido, não temos nenhum estudo de boa qualidade que demonstre esse aumento. Até existem estudos retrospectivos que mostram um pequeno aumento em pacientes com endometriose e que passaram por FIV. Mas sinceramente? Estudos de baixa qualidade metodológica e aumento que não tem poder estatístico.

Na outra ponta, a maioria dos estudos não encontrou essa correlação. Apesar de ser um medo importante, aparentemente ele é um medo sem um bom fundamento. Se tivéssemos um aumento significativo nesse dado, com certeza já teríamos encontrado esse desfecho. Então qual o recado final?
Jogue essa preocupação no lixo. Já temos muito com o que se preocupar com a endometriose (e com a vida) para adicionar mais uma!
Engravidei com endometriose, tenho maior chance de perder a gestação?
A endometriose não aumenta o risco de má-formação, mas aumentaria o risco de abortamento?
Aqui infelizmente a resposta é sim! A endometriose aumenta, e aumenta bastante o risco de abortamento no primeiro trimestre. Esse aumento seria da ordem de 50%!
E precisamos entender que a chance de abortamento gestacional é relativamente grande por si só. É estimado uma chance de 20% para pacientes abaixo dos 35 anos, cerca de 30% para pacientes entre 35 e 39 anos e até 50% para pacientes acima dos 40 anos. A essas chances por idade vai ser adicionado um aumento de 50% nas pacientes com endometriose o que é bastante preocupante!

A paciente com endometriose não apenas tem mais infertilidade e dificuldade de engravidar. A paciente com endometriose também perde mais gestações! Novamente aqui temos reafirmado a importância do planejamento familiar nas pacientes com endometriose. O alto risco fértil que elas possuem vai além da fecundação propriamente dita e se estende para o primeiro trimestre.
Aumenta algum risco na gravidez com endometriose?
Já entendemos que o aumento do risco de abortamento de primeiro trimestre na endometriose é preocupante e que deve ser sempre informado e discutido com a paciente. Porém, existe aumento de risco de outros desfechos obstétricos?
A notícia ruim é que sim. A notícia boa é que percentualmente são aumentos de risco absoluto que no geral causam pouco impacto na gestação.
O primeiro deles é o aumento de parto prematuro, é sabido que as pacientes com endometriose irão ter mais partos prematuros. Esse aumento em risco absoluto é pequeno, saindo de cerca de 8% na população geral para cerca de 11-12% na população com endometriose. O aumento do risco absoluto de distúrbios hipertensivos e pré-eclâmpsia também segue ordem parecida de aumento.

O risco relativo que aumenta muito é o de placenta prévia, com algumas séries mostrando um risco até 4x maior! Isso é facilmente compreendido pela inflamação que a endometriose causa no útero e na pelve feminina associado a alteração nas contrações endometriais. Tudo isso perturba a migração da placenta e sua fixação.
Por fim, pacientes com endometriose tem um aumento no risco de parto cesareana em cerca de 40%. Isso decorre tanto do maior índice de complicações que a endometriose traz quanto do alto número de gestações em idade avançada que ocorrem com as pacientes.
Como preparar o acompanhamento de endometriose e gestação
O planejamento começa antes da gravidez, quando isso é possível, e continua depois de um teste positivo. Para a consulta, organize as informações sobre a localização da endometriose, cirurgias anteriores, tratamentos utilizados e exames disponíveis. Explique também se a gestação aconteceu espontaneamente ou após tratamento de reprodução assistida. Esse histórico ajuda a equipe a compreender a trajetória até a gravidez.
Se você está tentando engravidar, leve suas dúvidas sobre fertilidade e acompanhamento da doença. Se já está grávida, conte ao profissional do pré-natal que tem endometriose e informe os tratamentos e procedimentos anteriores. Não é necessário interpretar sozinha cada exame para iniciar essa conversa. O acompanhamento deve permitir que as informações sejam reunidas e discutidas de forma compreensível.
Ter uma informação sobre aumento de risco não significa saber o que acontecerá em uma gestação individual. Ao conversar sobre estudos, peça que o profissional explique qual foi o grupo avaliado e o que aquele resultado representa no seu caso. Risco relativo e risco absoluto descrevem coisas diferentes; misturar essas medidas pode tornar a informação mais assustadora ou mais tranquilizadora do que ela realmente é.
Também é importante separar os momentos da jornada. Uma dúvida sobre conseguir engravidar pede uma avaliação reprodutiva. Uma dúvida sobre acompanhamento durante a gravidez deve fazer parte do pré-natal. Já a conversa sobre retorno dos sintomas e continuidade do cuidado pertence ao planejamento do período após o parto. Esses assuntos se conectam, mas não precisam ser resolvidos com uma única resposta.
Perguntas para levar ao pré-natal
Anote o que mais preocupa você: o desenvolvimento do bebê, a possibilidade de perda gestacional, o risco de parto prematuro ou a continuidade do cuidado com a endometriose. Começar pela preocupação principal torna a conversa mais objetiva. Se uma orientação não ficou clara, peça que a equipe explique novamente e relacione a recomendação ao seu histórico.
Pergunte como será organizado o acompanhamento, quais informações precisam ser compartilhadas entre os profissionais e quando deve retornar. Se houver mudanças nos sintomas ou dúvidas sobre medicamentos, procure orientação da equipe que acompanha a gestação. Não altere tratamentos por conta própria a partir de uma leitura na internet; o plano precisa considerar a situação atual e as particularidades da gravidez.
Depois do parto, vale retomar a conversa sobre a doença, sintomas, amamentação e planos reprodutivos futuros. O nascimento não encerra todas as necessidades de cuidado da mulher. Ter um espaço para falar sobre essas questões ajuda a organizar a continuidade do acompanhamento e a perceber quais dúvidas ainda precisam de avaliação individual.
Para ampliar a compreensão dos sintomas e do diagnóstico, consulte o guia Endometriose, conheça os sintomas, diagnóstico e o tratamento.
Entre as referências do texto estão a revisão The impact of endometriosis on pregnancy e o estudo de Hsu e Ding sobre complicações da gravidez.
FAQS — Perguntas frequentes sobre Endometriose e gestação
A gestação pode acontecer espontaneamente ou com auxílio de tratamento, dependendo do caso. Endometriose não deve ser interpretada como impossibilidade automática de ter filhos.
Não. A possibilidade de gravidez continua existindo. Se não deseja engravidar, converse com seu médico sobre a estratégia contraceptiva adequada.
Não. Mesmo quando há melhora dos sintomas, é importante discutir a continuidade do cuidado e o planejamento após o parto.
É necessário considerar população, desfecho e forma de cálculo. Um aumento relativo de risco não equivale ao mesmo aumento em pontos percentuais no risco absoluto.
Sim. Compartilhe o diagnóstico, tratamentos, cirurgias anteriores e exames disponíveis para que a equipe conheça seu histórico.
Combine essa continuidade com a equipe. O período após o parto também é uma oportunidade de rever sintomas, dúvidas e planos de cuidado.
Conclusão sobre Endometriose e gestação
Endometriose e gestação envolvem perguntas diferentes ao longo da vida: conseguir engravidar, compreender os sintomas, acompanhar a gravidez e organizar o cuidado após o parto. O diagnóstico merece atenção, mas as informações gerais não permitem prever o que acontecerá com uma paciente específica.
O texto do Doutor destaca a importância do planejamento familiar e de conversar sobre os possíveis desfechos da gravidez. Para aproveitar essa orientação, reúna seu histórico, exames e dúvidas e compartilhe essas informações com os profissionais que acompanham você. A consulta deve ajudar a entender como os dados se relacionam ao seu caso.
Percentuais de estudos precisam ser interpretados com contexto, considerando a população e o resultado avaliado. Evite transformar uma estatística em previsão individual. Se uma informação gerar preocupação, peça explicações sobre seu significado e sobre quais medidas de acompanhamento fazem sentido na sua situação.
A continuidade do cuidado também importa depois do nascimento. Converse sobre sintomas, tratamentos e planos futuros, respeitando a fase de vida e as necessidades da mulher. No Rio de Janeiro e região, procure uma avaliação que considere a endometriose e sua história reprodutiva de forma conjunta. Este artigo é informativo e não substitui o pré-natal ou a consulta individual.


