Você sentiu dores e sintomas da endometriose por anos sem receber um diagnóstico? Passou por vários ginecologistas, ouviu que os exames estavam normais ou percebeu que suas queixas não foram valorizadas? Precisou insistir para que uma investigação fosse realizada? Infelizmente, você não está sozinha: muitas pacientes percorrem um caminho longo até que os sintomas sejam reunidos e a possibilidade de endometriose seja investigada de forma adequada.
Sou o Dr. Vinícius Araújo, cirurgião ginecológico com especialização em endometriose, incluindo casos complexos com acometimento intestinal, urinário e de estruturas profundas da pelve. Atuo no Rio de Janeiro, RJ – Brasil. Neste artigo, vamos entender por que o diagnóstico da endometriose ainda demora, mesmo sendo uma doença frequente, e quais mudanças podem reduzir esse atraso.
Por que o diagnóstico da endometriose ainda demora tanto?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Ela pode afetar os ovários, as tubas, o peritônio e estruturas profundas da pelve, além de órgãos como intestino e sistema urinário.
Essa variedade de localizações ajuda a explicar por que os sintomas não são iguais para todas as mulheres. Algumas apresentam cólicas menstruais incapacitantes; outras percebem dor durante a relação sexual, alterações intestinais, sintomas urinários, dor pélvica fora do período menstrual ou dificuldade para engravidar. Há também pacientes com lesões extensas e poucos sintomas, enquanto outras apresentam dor intensa mesmo sem alterações evidentes nos exames.
Por isso, o diagnóstico da endometriose não depende de um único sintoma ou de um exame isolado. Ele exige a combinação entre história clínica, exame físico, métodos de imagem adequados e interpretação por profissionais familiarizados com a doença.
O diagnóstico da endometriose pode levar de 8 a 10 anos
Estudos de diferentes países mostram que muitas pacientes esperam vários anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico. Em diversas populações, esse intervalo aparece na faixa de 8 a 10 anos. Uma revisão sistemática publicada no BJOG confirmou que o problema varia entre regiões e depende da forma como cada estudo define o início dos sintomas, a primeira procura por atendimento e a confirmação diagnóstica.
Esse atraso não acontece apenas no Brasil. Pesquisas realizadas em países como Reino Unido e Estados Unidos também descrevem trajetórias prolongadas. Durante esse período, a paciente pode conviver com dor, limitações profissionais, prejuízo nas relações, impacto emocional e preocupação com a fertilidade sem compreender a origem do problema.
A endometriose não é uma doença rara. Estimativas internacionais costumam indicar prevalência próxima de 10% entre mulheres em idade reprodutiva, e algumas publicações trabalham com faixas mais amplas. Por isso, um atraso tão prolongado não deve ser tratado como inevitável. Profissionais de saúde precisam reconhecer os sinais, e as pacientes precisam encontrar espaço para relatar sua história por completo.

A paciente pode passar por 5 ou 6 ginecologistas antes do diagnóstico
Talvez esse seja um dos dados mais preocupantes. Muitas pacientes não permanecem sem diagnóstico porque deixaram de procurar atendimento. Elas passam por vários ginecologistas — profissionais especializados na saúde da mulher — e ainda assim não recebem uma investigação direcionada.
Um dos motivos está na formação médica. Muitas residências não oferecem ambulatório específico de endometriose nem contato organizado com casos superficiais, ovarianos, profundos, intestinais ou urinários. Quando o médico não aprende a incluir a doença entre as hipóteses prováveis, pode interpretar cada sintoma separadamente ou encerrar a investigação após um exame inadequado.
Reduzir o atraso no diagnóstico da endometriose exige mudanças na educação médica, nos fluxos de encaminhamento e no acesso a centros de imagem experientes. Também exige tempo de consulta para ouvir a paciente e reconhecer o padrão dos sintomas.

Diagnóstico da endometriose: por que normalizar a cólica atrasa a investigação?
Ouvir que “sentir dor faz parte de ser mulher” ainda é comum. A cólica menstrual pode existir sem uma doença associada, mas não deve ser considerada normal quando impede a paciente de estudar, trabalhar, dormir, praticar atividades físicas ou manter sua rotina.
Quando a dor incapacitante é tratada apenas como uma característica individual, a investigação pode ser adiada por anos. Muitas pacientes aprendem a organizar a vida em torno do ciclo menstrual, faltam a compromissos e utilizam analgésicos repetidamente sem que a causa seja esclarecida.
Uma cólica leve, que dura um ou dois dias e melhora com medidas simples, não tem o mesmo significado de uma dor que provoca faltas ao trabalho, incapacidade importante, náuseas, vômitos ou necessidade frequente de medicação. O impacto da dor é um dado clínico essencial. Também importa pesquisar irradiação para região lombar, coxa, perna, ombro ou escápula e entender se esses sintomas se repetem de acordo com o ciclo.
Falta de suspeita clínica no diagnóstico da endometriose
O texto-base escrito pelo Dr. Vinícius destaca um ponto relevante: muitas mulheres não permanecem sem diagnóstico por falta de procura médica. Elas passam por diferentes ginecologistas, repetem sua história e, ainda assim, podem não receber uma hipótese diagnóstica adequada.
Uma das razões é a formação desigual sobre endometriose. Nem todos os programas de residência oferecem contato estruturado com ambulatórios especializados ou acompanhamento de casos complexos. Quando o profissional não foi treinado para reconhecer o conjunto de sinais, a doença pode não entrar entre as primeiras hipóteses.
Isso não significa que toda dor pélvica seja endometriose. Infecções, alterações musculares, doenças intestinais, condições urinárias e outras causas ginecológicas também precisam ser avaliadas. O problema ocorre quando a hipótese de endometriose é descartada sem uma investigação compatível com os sintomas.

Sintomas da endometriose podem parecer problemas de outras especialidades
A endometriose pode produzir sintomas que levam a paciente a procurar diferentes áreas da saúde. Dor ao evacuar, constipação ou diarreia cíclica podem ser interpretadas inicialmente como problemas gastrointestinais. Dor ao urinar, urgência urinária ou sangue na urina durante o período menstrual podem direcionar a investigação para o sistema urinário.
Em outros casos, o primeiro sinal percebido é a infertilidade. A paciente pode não relacionar cólicas antigas ou dor na relação a uma possível doença. Quando cada sintoma é analisado separadamente, a conexão com o ciclo menstrual e com a endometriose pode passar despercebida.
Na investigação intestinal, é importante perguntar sobre fisgadas no ânus, cólica para evacuar, distensão abdominal, constipação, diarreia e sensação de evacuação incompleta. A presença de sintomas intestinais não significa necessariamente invasão da parede do intestino: lesões próximas, aderências e inflamação pélvica também podem contribuir para o quadro.
Entre os sintomas urinários, a paciente pode apresentar dor com o enchimento ou esvaziamento da bexiga, aumento da frequência urinária, urgência, sensação de esvaziamento incompleto ou incontinência. A relação cíclica aumenta a suspeita, mas esses sinais também podem ocorrer em outras doenças e precisam de avaliação individualizada.
Uma história clínica organizada ajuda a reunir essas informações. A relação temporal entre sintomas e menstruação, a progressão da dor e a presença de casos semelhantes na família são dados úteis para orientar a investigação.
Exames inadequados podem atrasar o diagnóstico da endometriose
Outro motivo frequente para o atraso é a realização de exames que não foram planejados para procurar endometriose. Um ultrassom transvaginal simples pode avaliar útero e ovários, mas não necessariamente mapear lesões profundas. A tomografia computadorizada não costuma ser o método de escolha para esse mapeamento, e uma colonoscopia normal não exclui endometriose intestinal.
Colonoscopia e endoscopia investigam a parte interna do tubo digestivo. Como a endometriose intestinal geralmente começa nas camadas externas do intestino, uma colonoscopia normal não exclui comprometimento intestinal.
Assim, receber um resultado “normal” não significa automaticamente que os sintomas não tenham causa. É preciso perguntar qual foi o objetivo do exame, qual protocolo foi utilizado e se o profissional responsável tem experiência no mapeamento da endometriose.

Quais exames ajudam no diagnóstico da endometriose?
Os principais métodos de imagem são o ultrassom transvaginal com preparo específico para pesquisa de endometriose e a ressonância magnética da pelve com protocolo direcionado. A escolha depende do quadro clínico, da disponibilidade e da avaliação médica.
O preparo e a técnica permitem examinar regiões que precisam ser avaliadas de forma sistemática, como ovários, ligamentos uterinos, fundo de saco vaginal, septo retovaginal, bexiga, ureteres e segmentos intestinais. A experiência de quem realiza e interpreta o exame é tão importante quanto o equipamento.
Esses exames ajudam a identificar a localização e a extensão de muitas lesões e oferecem informações importantes para planejar o tratamento. Entretanto, nenhum método de imagem detecta todas as formas da doença. A Organização Mundial da Saúde destaca que a história menstrual, os sintomas e os exames de imagem participam do diagnóstico e que a cirurgia não precisa ser o primeiro passo em todos os casos.
Diagnóstico da endometriose com exame de imagem normal
Sim. A endometriose superficial infiltra menos de 5 milímetros e pode se apresentar como pequenas manchas ou implantes no peritônio. Essas lesões podem não aparecer claramente no ultrassom ou na ressonância, mesmo quando os exames seguem protocolo adequado e são realizados por profissionais experientes.
A videolaparoscopia permite visualizar e tratar lesões em situações selecionadas, mas não se deve operar toda paciente apenas para obter um diagnóstico. Quando a história clínica é compatível, o médico pode discutir tratamento empírico com bloqueio hormonal e medidas complementares. Se houver boa resposta, muitas pacientes podem seguir em acompanhamento clínico sem laparoscopia exclusivamente diagnóstica.
Por outro lado, sintomas e exames precisam ser interpretados com equilíbrio. Um exame normal não confirma endometriose, mas também não encerra necessariamente a investigação. O médico deve avaliar hipóteses alternativas, resposta a tratamentos anteriores, exame físico e evolução clínica.
A cirurgia não deve servir apenas para “descobrir” a doença em todas as pacientes. A necessidade de abordagem cirúrgica depende dos sintomas, da localização das lesões, do desejo reprodutivo, do comprometimento de órgãos, dos tratamentos prévios e dos objetivos individuais. A diretriz da ESHRE sobre endometriose orienta que o médico considere a avaliação clínica, os exames de imagem e as alternativas terapêuticas antes de definir a necessidade de laparoscopia.
Quais sinais podem indicar a necessidade de investigar endometriose?
A suspeita merece atenção especialmente quando os sintomas são recorrentes, progressivos ou relacionados ao ciclo menstrual.
- Cólicas menstruais que impedem atividades habituais.
- Dor profunda durante ou após a relação sexual.
- Dor pélvica persistente fora da menstruação.
- Dor para evacuar ou alterações intestinais cíclicas.
- Dor ao urinar ou sintomas urinários durante o ciclo.
- Dificuldade para engravidar associada a outros sintomas.
- Histórico familiar de endometriose.
A presença de um desses sinais não confirma a doença. Ela indica que a história precisa ser avaliada com cuidado e que a hipótese de endometriose pode fazer parte do diagnóstico diferencial.
Como se preparar para uma consulta de investigação?
Organizar as informações ajuda o profissional a compreender o padrão do quadro. Antes da consulta, pode ser útil registrar os sintomas ao longo de dois ou três ciclos, anotando intensidade, duração, relação com a menstruação e impacto nas atividades.
- Leve exames e laudos anteriores, mesmo quando foram considerados normais.
- Informe medicamentos e tratamentos já utilizados.
- Descreva sintomas intestinais, urinários, sexuais e reprodutivos.
- Conte se outras mulheres da família têm diagnóstico de endometriose.
- Relate faltas ao trabalho ou estudo e limitações causadas pela dor.
Esses registros não substituem a avaliação médica, mas reduzem o risco de informações importantes ficarem de fora por falta de tempo ou por dificuldade de lembrar detalhes durante a consulta.
Diagnóstico não significa necessariamente cirurgia
Outra preocupação frequente é imaginar que investigar endometriose levará obrigatoriamente a uma operação. O tratamento pode envolver acompanhamento clínico, controle hormonal, manejo da dor, fisioterapia do assoalho pélvico e outras estratégias, conforme sintomas e objetivos da paciente.
A cirurgia pode ser considerada em situações específicas, como dor persistente apesar do tratamento, comprometimento de órgãos, alterações anatômicas importantes ou determinadas situações relacionadas à fertilidade. A decisão deve ser individualizada e discutida de forma transparente.
O objetivo da investigação não é apenas atribuir um nome aos sintomas. É compreender o quadro, avaliar riscos, excluir outras causas e construir um plano de cuidado compatível com a vida e as prioridades da paciente.
Quando procurar atendimento com mais rapidez?
Dor pélvica crônica merece investigação, mas alguns sinais exigem avaliação mais rápida. Procure atendimento diante de dor súbita e muito intensa, desmaio, febre, vômitos persistentes, sangramento importante, dificuldade para urinar ou evacuar, distensão abdominal acentuada ou piora rápida do estado geral.
Esses sintomas podem ter causas diferentes da endometriose e não devem ser atribuídos automaticamente à doença.
❓ FAQ — Perguntas frequentes sobre Diagnóstico da endometriose
O tempo varia. O atraso pode ocorrer quando a dor é normalizada, os sintomas são analisados separadamente ou os exames não utilizam protocolo específico.
Não necessariamente. O ultrassom simples pode não mapear todas as lesões, e a endometriose superficial pode não aparecer mesmo em exames direcionados.
Ultrassom transvaginal com preparo e ressonância com protocolo específico são métodos usados na investigação, mas nenhum exame detecta todas as formas da doença.
Sim. A apresentação varia, e algumas pacientes têm sintomas intestinais, urinários, dor na relação ou infertilidade com pouca cólica.
Não. A avaliação pode ser clínica e por imagem, e a necessidade de cirurgia depende dos sintomas, achados, riscos e objetivos individuais.
Conclusão sobre Diagnóstico da endometriose
O diagnóstico da endometriose pode demorar porque a doença reúne sintomas variados, diferentes localizações e limitações próprias dos exames. Quando profissionais e pacientes normalizam a dor menstrual, analisam cada queixa isoladamente ou utilizam exames sem protocolo específico, a investigação perde informações importantes e o caminho até o diagnóstico se prolonga.
Reduzir esse atraso exige escuta ativa. A consulta precisa considerar o impacto da dor na rotina, sua relação com o ciclo menstrual, sintomas intestinais e urinários, dor na relação, fertilidade, histórico familiar e tratamentos já tentados. Exames de imagem bem indicados e realizados por equipes experientes ajudam a mapear muitas formas da doença, mas resultados normais não encerram automaticamente a avaliação quando os sintomas persistem.
Ao mesmo tempo, nenhum sintoma isolado confirma endometriose. O médico deve avaliar outras causas de dor pélvica e construir a estratégia de investigação de forma individualizada. O objetivo não é apenas chegar a um nome, mas compreender o quadro, proteger órgãos quando houver risco, aliviar sintomas e definir um plano de cuidado coerente com as necessidades e os projetos de vida da paciente.
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